domingo, 18 de agosto de 2013

Magia ao meio dia



Olhei para o aquele céu azul, tão brilhante e incomodo do meio dia, semicerrei os olhos a fim de enxergar o outro lado da avenida, uma gota de suor escorria em meu pescoço. Incomodo. Mais uma entrevista de trabalho a qual fui rejeitada, mais um fracasso, no entanto não conseguia sentir-me frustrada, eu era um ser apático, sem muitas perspectivas , planos ou aspirações, tudo o que eu desejava naquele momento, era um futuro imediato, onde eu pudesse sentar a sombra e tomar um coca gelada.
Por fim, acomodei-me em um banquinho de praça e observei as pessoas passarem enquanto aproveitava minha coca geladinha, fiquei ali pensado em bobagens, distraída, e com um leve temor de chegar em casa e ter que informar minha família de minha recente rejeição. Meus pais não eram pessoas pobres, mas eram insuportavelmente responsáveis e trabalhadores, e jamais aceitariam uma filha desocupada e patética como eu, que não quis ir a faculdade por preguiça e birra, todas as minhas economias se resumiam a meros duzentos e quarenta e um reais, os quais deveria gastar com extrema sabedoria, eu não era uma pessoa apenas preguiçosa, havia também um lado meu o qual ninguém conhecia, eu era mesquinha quando o assunto era dinheiro, mesquinha ao olhos alheios, aos meus eu era apenas ponderada, pois bem essa pessoa economicamente pobre estava sentada em uma pracinha qualquer, dessas de bairro, com algumas poucas árvores e brinquedos velhos e mal conservados, eu observava as pessoas apressadas em pleno meio dia. Imaginava o que as fazia tão ocupadas, mas no final isso não me interessava, foi quando notei uma garota em baixo de uma arvore observando-a, ela era magrinha e um tanto comprida, como se tivesse crescido rápido demais, usava um estranho vestido, típico dos anos trinta e tranças que denotavam cabelos incrivelmente longos e pretos, ela olhava para a árvore como se ela fosse uma coisa estranha, ela analisava-a, olhei ao redor e ninguém parecia interessar-se pela pequena magrela que não devia ter mais que seis anos, eu a observei por um longo tempo, então ela simplesmente saiu da sombra da árvore, mas não sem antes lançar-me um olhar desafiador e correr.
Olhei para onde ela havia ido, e notei uma mulher falando ao celular numa calçada ao lado da praça, ela segurou a mão da menina e saiu, eu não tinha notado a mãe de tanto fascínio que a filha me exerceu, terminei de tomar minha coca e segui adiante, rumo a parada de ônibus, a rua a qual seguia era do tipo residencial, no entanto haviam apenas enormes prédios, carros estacionados e passando pela rua, não havia sinais realmente humanos por pelo menos três quarteirões, continuei seguindo em frente, segurando minha bolsa firmemente pelas alças, quando vi um tumulto a frente, um possível assalto, fiquei com medo entrei na primeira rua segui rápido,  foi só quando o pânico passou que me dei conta que não sabia mais onde estava, havia o som de uma música tocada ao piano, cheiro de torta de batata, barulho de gente conversando e observando o lugar, a rua não era bem uma rua, era uma vila, com calçada de ladrilhos, casas duplex coloridas seguindo um mesmo padrão de telhado vermelho e  com varandas, umas com decoração tropical, algo bem característico já que eu morava no litoral, no entanto não parecia minha cidade, o som do piano se misturava ao barulho vindo das casas a medida em que eu caminhava, havia jardins bem cuidados, barulho de sino dos ventos e até uma brisa gostosa dando boas vindas. Continuei andando e vi a menina de tranças brincando com um gato na frente de uma das casas, quando passei por ela a vi encarando-me provocante, com um risinho no canto dos lábios, virei o rosto esnobe e segui em frente, ao final da vila percebi que bateu uma melancolia, como se eu tivesse voltado a realidade frustrante de todo dia, segui a esquerda em direção a uma movimentada avenida a qual avistara, e percebi que todo o tédio havia sumido devido aos poucos momentos vividos enquanto andava por aquela vila, quando cheguei a avenida peguei um ônibus e fui para casa, já eram duas da tarde quando cheguei, olhei-me no espelho de casa, e encarei-me, percebi naquele momento que eu não era bem um fracasso, mas só nunca havia me interessado pela vida, e vivia tediosamente por não olhá-la devidamente. Nada mudou de verdade, mas eu senti uma pontada de entusiasmo.
Há magia tudo, há magia sempre, mesmo no mais tedioso e quente meio dia...

domingo, 1 de janeiro de 2012

Namorados...


Namorados

Era uma manhã fria, daquelas que vem depois de muita chuva, os raios de sol entravam sorrateiros através das cortinas, e acordaram-na, os cílios longos e negros se abriram, revelando um pequeno globo azul cintilante, os pequenos lábios rosados, ressecados, eram umedecidos pela tímida língua, ela levantou, revelando as marcas do lençol na bochecha, calçou os chinelos e cambaleou até a cozinha, mas não sem antes dar uma olhada fugaz para o homem deitado em sua cama, que dormia tranquilamente.

Ela preparou o café da manha, ovos mexidos, bacon e café, e mingau de aveia. Ele apareceu na porta da cozinha, coçando a barriga, usava apenas cueca, ele sorria preguiçoso, e anunciou bocejante:

- Bom dia.

Ela sorriu, e acenou, ele se acomodou a mesa, ela foi ao banheiro e voltou rapidamente, era possível ver gotículas de água nas pontas de seus cílios, eles sorriam, era uma boa manhã, e então, como se os sol quisesse invadir o momento triunfantemente, o vento levantou as cortinas, iluminando por um breve momento toda a pequena cozinha, e eles se olhavam, e por uma fração de segundos ou uma eternidade tudo parou.

Ele viu que ela sorria madre perólas, e ela o viu sorrir marfim.

Ele sentiu seu perfume de flores, e ela que ele tinha cheiro macio de aveia.

Ela se fascinava com seus gestos e ele, com as cores dela.

Ele se encantava naquele instante, o azul de seus olhos, o branco de seu sorriso, o rosa de seus lábios e o castanho de seus cabelos.

Ela o olhava fascinada, o negror de seus olhos, a morenice de sua pele, a languidez de sua boca, ela o enxergava em cada poro e percebia que o amava.

Ele a admirava como um todo. Era tão bela, e tão sua, se sentia rico, sortudo e feliz.

Ela se sentia acolhida, protegida e completa...

Não possuíam os mesmos interesses, mas eram sutis em seu amor, pois combinavam em pequenas coisas, e isso fazia toda a diferença, eram dois, mas tão perfeitamente sincronizados, que causavam estranheza. Ele odiava o lilás de suas roupas, mas amava as curvas que a ela pertencia. E ela odiava o seu cinza, mas amava as cores que lhe coloriam, ele detestava sua música tecno e suas baladas. E ela seu gosto peculiar por culturas já extintas. Mas o amor de um pelo outro, era o tudo o que bastava para que se completassem.

E eram perfeitos, perfeitos namorados...

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Ela... Porque ela também é mulher... ( Eu acho)


...O som pesado do violão e a voz rouca dela adornavam o entadercer, era um tarde de inverno, e o tempo ainda estava nublado, mas ainda assim a chuva não caia, o céu era apenas uma paisagem em tons de cinza, marfim e pérola, povoando a imaginação dela que cantava mas uma vez...
A voz rouca e envolvente embalava os pensamentos de Dimbiéeri. Ele cochilava na velha cadeira de balanço. A cada nota dedilhada ele via por baixo de suas palpebras pedaços de sua juventude, o sorriso de sua amada Beladona Gervitteux, seu primeiro amor que havia falecido no auge de sua mocidade por uma pneumunia. O sorriso dela no balanço improvisado, o som da gargalhada dela. Ele recordou do pic-nic feito as escondidas as margens do rio Sena, as folhas do outono refletindo a luz de um sol intransigente que brilhava radiante em um dourado por do sol. Era belo e mágico.
Lembrou do passeio de bicicleta com as amigas de Beladona, lembrou de seu vestido vermelho e do chapéu grande demais para uma pessoa tão delicada e pequena. A fita rosa com a qual amarrava a ponta de sua trança, lembrou do perfume dos biscoitos caseiros que ela lhe preparava, do cheiro do xarope com o qual cobria as frutas que lhe servia.
...A voz rouca e melodiosa cessou brandamente, e seu violão dedilhou novas notas, mas doces, mas quentes, mas alegres, quase libertinas... e suas lembranças mudaram.
Era doce demais aquela lembrança tão remota de sua mocidade, as noites boemias em bares e cafés, bordéis e teatros das ruas de Paris, luzes e cores lhe povoaram a mente, e o cheiro, e o olhar de Alicia quase pareciam presentes de tão nitída que era sua lembrança, ela que era dançarina de um dos mais respeitaveis bordeis da França, lhe subjugou a um mundo de vicios e jogos, de álcool e música. Noites insólitas e tórridas, seguidas por uma carteira vazia e uma mente cheia de arrependimentos.
Alicia era pécado e fantasia, era a representação de tudo que era devasso em forma de mulher, as plumas, os perfumes, as jóias, o cheiro de pele e cigarro, bebidas e frutas, de amor e pécados. Sorrisos e fantasias. A lembranças eram sujas e belas, mescladas com um surrealismo poético que a saudade lhe impôs.
...E de novo, uma nova melodia, essa era branda, quase um lamento, o som do violão outrora pesado dava espaço a uma melodia mais harmônica, o som da voz rouca dela, era agora quase um lamento, tão bela...
E acompanhando a suave melodia uma nova lembrança, era a lembrança de Helena, a bela estudante de arte que o convecera que a vida é tão bela quanto abstrata, com ela viajou o mundo através da música, cinema e literatura. Aprendeu gastronomia, fotografia e a dançar, apaixonou-se diversas vezes por ela, que era uma, duas e três mulheres diferentes em uma mesma noite, ela era doce, quente e misteriosa, quando pensava compreendê-la, ela o surpreendia com um novo eu dotado de um existencialismo fantástico, com novos ideais e caracteristicas de uma intensidade quase surreal. Ela não foi seu primeiro amor, mas foi mais que a primeira qualquer coisa, ela era algo completamente diferente, ela era uma estrela, um sol vivo sob a forma humana, ela era uma musa capaz de inspirar todos os ritmos de canções, era sua borboleta em eterna metamorfose. Quanto mais ele a conhecia, mais a amava. Ele viu e sentiu em suas memórias todo o explendor daqueles dias, a morena fantástica que era Helena, pertencia a uma nação completamente diferente da sua, ele casou com ela, e foi morar no Brasil, onde se apaixonou mais uma vez, agora por uma mulher quente e viril, tão real quanto sua mãe e tão etéril quanto um fantasia, era uma Helena culta que sambava, e tornou-se mãe e esposa zelosa. Lia livros antes de dormir. Pintava telas após o jantar. E aquela melodia lamuriosa o lembrou de sua fantástica esposa.
Dimbiéeri abriu os olhos, haviam uns ultimos acordes no violão, e ainda embalado pela melodia ele viu Helena, sua única esposa, mãe de suas adoradas Meire e Camila, ela lhe estendeu a mão, ele aceitou-a, ela o olhava nos olhos, ele incapaz de balbuciar qualquer palavra, seu coração batia forte e devagar, assim como o ritmo da melodia, Helena estava exatamente igual, as longas madeixas negras emoldurando o rosto delicado, a pele amorenada brilhante e vivaz, era exatamente como em suas lembranças, ela se inclinou na ponta do pé, ele abaixou-se para receber o beijo oferecido, tão feliz, e assim, com um ultimo acorde a música acabou. E o coração de Dimbiéeri cessou os batimentos.
A morte foi doce, morena e juvenil. E ele se foi, com sua amada esposa ao caminho do "para sempre"...

...Ela colocou o violão nas costas, havia colhido mais uma alma, dever cumprido... E assim foi embora a morte... Com sua voz rouca e graciosa melodia... Entorpecer mais uma alma e trazer mais doces lembranças de uma pobre alma as vésperas da morte.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Um ultimo adeus


" Não escrevi esse texto pensando em alguém em particular, eu simplesmente deixei fluir como faço sempre, espero que tenha atingido o nivel de sentimento que deve haver aqui."











Adeus
Primeiro quero me desculpar com meus pais, que nenhuma culpa tiveram sobre o que aconteceu, vocês me criaram bem, me abençoaram com todo seu amor e cuidado, me deram uma boa educação e me ajudaram em minhas dificuldades, nunca se negaram a me ajudar, nunca me menosprezaram ou me humilharam, sempre me ensinaram a ver a vida com realismo e nitidez, sem deixar de sonhar. Os levarei comigo no coração.
Não há culpa em meus irmãos que nunca deixaram de me acolher e proteger, que sempre me ajudaram em dificuldades e me apoiaram na busca pelos meus sonhos, a vocês serei eternamente grata, eu os amarei sempre.
Não culpo meu marido sempre tão bondoso e altruísta, me ensinou a dividir e a somar, e me fez perceber que o mundo pode ser mais doce e colorido do que podemos imaginar, você me mostrou o que era amor e paixão, em um mesmo relacionamento, me fez perceber que doando tudo de si, recebe-se mais em troca do que podemos imaginar, com você eu fui realmente feliz. obrigada por me amar tão cândida e ardentemente.
A minhas filhas Ann Marrie e Marta Jenny, peço perdão por não vê-las crescer, formarem-se e também por não poder explicar a elas sobre o amor e a vida, o que querem os garotos e o que esperar da vida, peço perdão por não está presente em seus doces momentos de amor e sonhos, não secar suas lágrimas ou preparar seus enxovais de casamento. Mas eu as amei quando as olhei nos olhos, quando as toquei pela primeira vez, eu as amei mesmo quando viviam apenas em meus pensamentos. E as amarei eternamente, desejo que cumpram suas metas e realizem seus sonhos, e não percam-se no caminho em busca de suas conquistas. Vocês que nasceram de mim, viverão em meu ultimo olhar e eternamente.
Aos meus amigos e companheiros de batalhas, tristezas e alegrias, deixarei meu sorriso, minhas piadas sem graça, sem vocês não teria conquistado tanto da vida, obrigada, e nunca vocÊs falharam comigo, obrigada.
Despeço-me da vida porque simplesmente cansei de viver, hoje me ocorreu que o verde não é mais tão brilhante, que as flores não são tão perfumadas e que a brisa, outrora refrescante, já não alivia meu coração, cansei de viver, dentro desta sala, sem poder dizer a vocês que tanto amo como me sinto, sem poder sorrir as minha filhas, ou acariciar a mão de meu amado marido, eu decidi poupar-lhes da dor que lhes tenho causado, não pude brindar uma ultima vez com meus amigos, dizer a meus pais o quanto os amo, nem aos meus irmãos o quanto os admiro, não pude uma ultima vez abraçar minha filhas e dar um ultimo e ardente beijo em meu marido, por isso, mesmo sabendo que meus últimos pensamentos não se farão conhecer, eu vou, mergulho agora nos braços da morte, eu vivi feliz, eu amei, e aproveitei cada momento, sejam felizes. Adeus.


Os aparelhos registram o ultimo batimento do coração de Luiza, não havia ninguém com ela, nem mesmo uma enfermeira que só chegou minutos depois. Os médicos anunciaram a hora da morte como 17hs e 43min do dia 06 de agosto de 2010. A família se despediu em um belo funeral, para o marido a lembrança do acidente ainda era muito vivida, e ao perdê-la a dor quase insuportável, mas haviam suas filhas. E depois de meses de luto e dor. Finalmente... Luiza passou a viver novamente nas lembranças felizes e acolhedoras daqueles que partilharam sua vida com ela e que puderam superar sua morte...

Morre-se em carne, mas vive-se eternamente na lembrança de quem se importa.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

A morena de ninguém





Ela tinha o gingado, parecia uma gata de rua, não se entregava a nada nem a ninguém, era livre e sensual, tinha a malandragem no sorriso e uma imensa doçura no olhar, sabia que era bela demais. tinha os homens aos seu pés, e nunca se curvara a nenhum deles, ela inspirava paixão, instigava desejos e plantava sonhos.
Tinha os lábios rosados, carnudos e bem desenhados, um belo sorriso, longos cabelos anelados, tão negros, a cintura fina e os seios fartos, ancas largas, imensamente sensual, os olhos castanhos, o cilios longos e escuros. Linda demais, era quase nefásta, olhava-nos nos olhos, mordiscando os lábios, seduzia.
Ah, como era devassa, com nada sonhava, vivia o seu dia, dormia a madrugada, a noite era boêmia das rodas de samba, andava de bar em bar com seu jeito livre e fúlgaz, não se entregava a homem algum, somente os cortejava, deixava-os ao leo, perdidos em meio ao limbo de profundos desejos.
Falava com lentidão, cheia de gírias, era peculiar em cada gesto, a voz doce e rouca, falava baixo e tão mansinho, era tão sublime, seu perfume embriagava fácil, encantava a todos com sua meninice. Bela aos olhos de todos, era como ópio. Uma vez que se olhava, era impossivel não se deixar seduzir.
Numa noite qualquer, de um verão muito quente ela dançava, sambava na roda encatando, todos lhe sorriam, dela se embriagavam... Cada um ali desejava a morena, e no meio da algazarra surgiu tal rapaz, vestido de malandragem, tinha vinte e poucos anos, era jovem também, assim como a morena, trazia nos olhos a mesma meiguice, mas ninguém o viu, ninguém o notou, até que seu olhar encontrou com o da morena, tudo escureceu, o mundo ficou mudo, a escuridão ao redor tomou forma, a morena parou com seu samba, sentiu um estranho movimento em suas entranhas, somente ela e o tal rapaz estavam presentes, ele a cortejou, ela cedeu, ele entou no samba, ela caiu na roda, e foi assim a noite inteira, embalados pela música e pela malandragem. O dia amanheceu, a lua se foi dando espaço ao rei celeste, o encanto se defez, orapaz voltou a ser um trabalhador qualquer, deixando só a morena e seu samba...
E ela se foi com seu samba, as pernas bambas de cansaço, perdeu-se no dia e raiou, sorrindo boba e feliz, apaixounou-se a morena, mas terminaria ali, o gosto do beijo do moço, seria apenas um anelo, era criatura da noite. Nâo tinha amor algum, era só uma morena, vivendo uma vida comum...

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Essas mulheres...: Conexão

Essas mulheres...: Conexão: "Conexão Era uma manhã fria do mês de abril, ela acordava cedo para trabalhar, tomou banho, arrumou-se, tomou o café da manhã, ao sair ..."

Conexão

Conexão

Era uma manhã fria do mês de abril, ela acordava cedo para trabalhar, tomou banho, arrumou-se, tomou o café da manhã, ao sair na rua sentia-se triste, no mundo havia concreto demais. Pensava. Sentia falta das arvores, dos pássaros, do cheiro de terra e do barulho do vento...
O tempo havia passado e naquela cidade, outrora tão bela nada do ilustre verde havia restado. Ela caminhava pelo parque, umas poucas árvores haviam ali, nada que merecesse importância ou um olhar deslumbrado, o progresso tinha dessas coisas, transformava, mas nem sempre o que era para ser bom o era realmente, sua cidade era tão bela, tão verde e viva, pulsava como um coração bombeando vivacidade e esperança... Como sentia falta.
Naquele dia frio de outono, ela estava particularmente triste, não que alguém pudesse notar, mas estava, e no seu íntimo algo se encolhia, era uma miniatura de si, aquela que ninguém haveria de conhecer, seu eu sonhador. Não era feia nem tão bela, era apenas uma mulher, que linda ficava quando sorria, sublime quando chorava e seduzia quando queria, bastava um olhar fugaz e ela era capaz, mas para ela isso não era suficiente, sentia-se vazia, perdida, havia tantos pensamentos e inquietações que queria compartilhar com alguém, mas não havia ninguém especial, ninguém que conseguisse conquistar seu coração, e havia ali tanto amor para dar.
Ela entrou no escritório, cumprimentou a todos, sentou em sua mesa, ligou o computador, e pôs-se a trabalhar, tal qual um robô, aquilo tudo era tão automático. Foi almoçar com uma "amiga", alguém incapaz de compreendê-la ou aceita-la. Mas para ela era conveniente que a tivesse, pois isso não a tornava, pelo menos não diante da massa, uma esclusa social. Ela não era arrogante, ou sentia-se de alguma forma superior, ela apenas era complexa demais para a sociedade em que vivia. Ela comeu o prato especial do dia, ouviu as fofocas mais quentes sobre os colegas de trabalho, nada interessante, não para ela, tomou o habitual cafezinho a tarde com os colegas de trabalho, outro meio de se socializar, encerrou o expediente e foi para casa.
Tomou banho, comeu seu miojo de cada dia enquanto assistia a novela, terminou seu jantar, lavou os pratos, deitou-se na cama, pensava que em algum lugar do mundo alguém desejava conhecer uma pessoa como ela, adormeceu, acordou no meio da madrugada, sentia-se cansada, mas não com sono, foi assistir tv,  um filme idiota passava na tv, não lhe prendeu a atenção, resolveu escultar música... Em meio aos doces acordes que formava tal intensa melodia ela pensou:
"Haveria alguém no mundo, que fizesse o mesmo que eu? Que sonhasse o mesmo que eu e que estivesse pensado algo parecido agora, neste momento?!"
Ela levantou-se do sofá onde esteve sentada, foi a cozinha, pegou uma cerveja na geladeira, abriu, sentou-se novamente no sofá e pôs-se a beber, olhava fixo para um ponto próximo a porta do quarto, havia ali um rapaz, ou um vislumbre de um, que olhava para ela com a mesma perplexidade... Ela piscou, ele sumiu.
Ela acordou no horário de sempre, arrumou-se, preparou o café da manhã, comeu e foi ao trabalho, seguiu sua rotina de sempre... trabalho, almoço com amiga, trabalho, cafezinho com o pessoal do escritório, encerrar o expediente e voltar para casa.
Na volta para casa a velha saudade bateu, saudade das numerosas árvores que coloriam a cidade com suas diversas tonalidades de verde, saudade do barulho do vento, do cheiro de terra e do cantarolar dos inúmeros pássaros... ela parou no meio da rua distraída, olhava para o céu, as lágrimas vinheram não sabe-se de onde, inundaram seus olhos e molharam seu rosto borrando a simples maquiagem, ela limpou as lágrimas com as costas das mãos e quando olhou para frente ela o viu, novamente como um vislumbre, o mesmo rapaz da noite anterior, mas ela estava sóbria, e havia uma estranha conexão entre eles... Um casal passou a sua frente e o rapaz desapareceu naquele instante de distração.
Ela voltou para casa sentindo-se um pouco louca, achava que estava sob muito estresse, tomou um banho, preparou um sanduíche e leite, pegou um livro da sua estante, sentou-se no sofá e distraiu-se na leitura. Então uma melodia familiar tomou conta do ambiente ao seu redor e tudo mudou, sua sala não parecia a mesma, e havia alguém mais nela, na outra poltrona olhando-a com uma imensa curiosidade e familiaridade, o rapaz. ela levantou do sofá e tudo voltou ao normal.
Dias se passaram seguindo a mesma rotina de casa e trabalho, e por várias vezes nesses dias o rapaz de sua visão continuou a aparecer... sempre um vislumbre. Temia estar ficando louca, não ousava contar a ninguém. Será que era um fantasma?! Melhor não falar nada para ninguém. Enfim chegava o fim de semana e ela iria por a casa em ordem, manteve-se ocupada e não o viu. Dias se passaram e não o viu mais.
Certa vez resolveu aceitar um convite para um jantar com um colega de trabalho, eles já haviam saido algumas vezes e sempre era divertido, até que uma noite ela o convidou para sua casa, eles tiveram relações, mas não foi doce e quente, e nada daquilo a fez sentir viva, apenas lhe fez repensar tudo o que estava acontecendo, será que deveria continuar com aquela relação?! De certa forma era cômodo voltar para casa acompanhada, também era bom estar com alguém ainda que esse alguém não a entendesse. Mas ao mesmo tempo que tudo parecia bem, ela sentia um vazio crescendo dentro de si, como se tivesse sede e nada a saciasse. Então ela o viu, encostado na parede ao lado da janela, olhando para ela distraído...
O ronco do seu parceiro na cama, fez com que a visão do rapaz se desfizesse. E por muitos anos ela não o viu...
Um dia, numa manhã de abril quando ela voltava do escritório de seu advogado com os papéis do divórcio, havia passado cinco anos casada, ela repensava sua vida, estava mais madura, teve sua experiência com o casamento, não desejava a maternidade, não ainda, resolveu que ia em busca de um sonho, pois havia se entregado ao óbvio, ao que se espera que façam todas as mulheres, mas ela, diferente de tantas não conseguiria sustentar ainda mais um casamento sem que houvesse a miníma compatibilidade... Voltando para seu apartamento, agora só, ela colocou sua música favorita, abriu uma garrafa de vinho, sentou no sofá e lá ficou, refletindo sobre suas escolhas, ela lembrou do rapaz que via sempre. Pensou no que aquilo significava, adormeceu.
Acordou com o som da campainha, era sua amiga, que vinha conversar amenidades, já estava quase na hora do almoço, ela tomou banho e arrumou-se, resolveram almoçar juntas, relembrou os velhos tempos, a vida parecia força-la a voltar ao mesmo lugar de sempre. Elas passaram a tarde no shopping em meio a compras e fofocas. Não havia sentido naquilo por mais que ela tentasse encontrar. Se despediram, ela seguiu para casa.
O cheiro de seu apartamento era o mesmo de sempre, mas não lhe agradava, ela ansiava por mudança. Tomou uma decisão, fez as malas, arrumou os documentos na bolsa e dirigiu-se ainda na mesma noite ao aeroporto da capital, era uma mulher livre de trinta e poucos anos, divorciada, com uma vida cheia de possibilidades pela frente... Chegou ao aeroporto, decidiu seu destino no uni duni tê, pegou o vôo e foi em busca de um novo caminho, não havia medo, ela sabia que ir em busca do desconhecido e satisfazer a si era seu destino, e ela foi lutar bravamente em direção ao acaso...
Quando o avião aterrisou e ela desceu, sentiu-se renovada, como se tivesse transformado em uma outra pessoa, sentiu que o mundo era maior. Ela saiu pelo o portão de embarque dois, e lá vindo de outro vôo ela viu, não sabia seu nome, sua idade, mas sentia que já o vira antes, e ele a notou, e se aproximou.
- Nós já nos vimos antes?!
Ela sentia que já o conhecia, havia uma estranha conexão com aquele estranho, forte demais para passar despercebida.
- Sinto o mesmo.
 Isto foi o que ela disse sorrindo. O destino os havia conectado, e ela tinha certeza ...